A Estância Chora Saudade

Desde quando fiz querência

Nestas paragens terrunhas,

Que finquei raízes firmes,

Que ergueram o mangueirão...

Desde lá tudo contemplo,

Sou a testemunha viva

Da pura gente altiva

Que cruza neste torrão...

 

Tenho em mim, ainda hoje,

Mesmo a vida transformada,

A casa grande altaneira,

Campo, galpão e figueira

Dando sombra à invernada;

Os buçais dependurados

E embora o tempo passado

Ainda respondo: Ramada!

 

Na sinfonia dos grilos

Vi minha gente chegar,

Por sonho, por sacrifício,

Campeiros para o serviço

Com potros para domar...

Também, muitos se foram

Com anseios de partida

Para renovar-se a vida

Longe de mim, noutro lugar!

 

Assim, me fiz Estância

- morada de pura essência -,

Trazendo a linda vivência

Que hoje digo em poema...

E ao relembrar muitas cenas,

A tropilha dos “recuerdos”

Vem fazendo reverência

Ao maior do meus campeiros!

 

Chegou aqui de “mansito”

Recorrendo estrebarias;

Aprendeu lida de campo

Em marcações de mangueira,

Que trouxeram experiências

Ao guri que hoje relato...

Bombachita arremangada,

Conheceu nesta Ramada

Que “ovelha não é pra mato”!

 

Vez por outra um Coronel,

Em meio à sombra copada,

Reunia a gurizada

E atirava algumas balas;

Era menos que a quantia

Das crianças do lugar

Queria vê-las pelear

Com arrogância na fala...

 

Primeira vez que chorei,

Entre as paredes da casa!

Mas chorava de alegria

Pelo exemplo que inundava:

Meu guri – luz campeira –

Fez do pouco um ato inteiro

Quebrou balas, fez parceiros,

Repartiu mais que ternura

E ensinou à humanidade 

Que grandeza é ter doçura.

 

Ao te trazer em poesia

Consigo, então, expressar

O que as minhas paredes,

O campo e todos campeiros

Puderam de ti contemplar...

Cada pedaço de estância

Traz um pedaço de história;

E essa, talvez, seja a sina

De que Pedros e Guilherminas

Vivem em nossa memória...

 

Mas no dia em que partistes

Pra viver noutro rincão,

Já taludo, bem montado,

Corcoveou meu coração...

Meu presente ia embora,

E o exemplo eu herdei

Entre orgulho e ausência,

Segunda vez que chorei...

 

Não pense que te perdi

- Velho Guri da Ramada -

Pois, desta longínqua planura

Eu te vi conquistando

As mais gaúchas bravatas

Pelas querências distantes!

 

Vi teus amores crescerem

Entre os galpões das estradas,

Ouvi toques de clarinadas

Que ouço “inda” hoje ecoar,

Vi enrugar o teu rosto

E “entordilhar” as melenas,

As alegrias, as penas,

Todo teu desencilhar...

 

E vi, novamente, partir,

Porém mais perto de Deus

E retornei a chorar...

 

Daqui sigo a trote largo,

Honrando o teu legado

E tua história de campeiro,

Pois quinchastes de emoção

A Terra Buena que habito,

E há de abrasar no infinito

A chama deste candeeiro!

 

Aguardo tua visita,

Pode ser noutro poema,

Mas sei que virás montado

Num tordilho, cacho atado,

Escrevendo um novo tema!

O lenção vermelho vivo,

Colorado esvoaçando,

E o sorriso emoldurando

Um taura de pé no estribo!

 

Chorei – mas chorei bonito

Por todos esses momentos

Em que partistes de mim...

Na certeza que ecoaria

Tua voz como um clarim!

 

A sanga corre de novo

Nas águas da eternidade

E volto a chorar saudade...

Saudade de ti, Benjamim!

Por favor, aguarde enquanto o processo é concluído...