Verso Antigo

Aquele ali imponente
mirando a lança pro céu.
(um dia já foi petiço
com macegas por chapéu).
Pra o campeiro em pé no estribo
no VERSO apanhar um cacho,
e depois vestir de canha
tanto Solzito dos “guacho”.
Já foi nova minha baia
cosquenta…quase assombrada.
Nunca larguei o meu VERSO
a bate cola…na estrada.
Nem atirei por brinquedo
no pescoço do meu cusco,
prefiro ganhar proseando
aquilo que tanto busco.
Quando vesti de poesia
algo que admirava:
- …algum amor dos perdidos
com puas de mamangava…
…outro amor que foi presença
(não se vive só de um),
que meu VERSO cerrou firme
mas acabou sem nenhum.
Pelas tardes de barulho
nos galhos dos “ocalitos”,
haviam verdes cantoras
pedindo VERSO nos gritos.
- Até ali não alcança!!!
(dizia um peão dos “antigo”),
…feito intenção na distância
tenteando “laçá” um amigo.
No coração da mangueira
estrofes boleando forte,
pegando bem pouco pealo
- um ou outro, mais por sorte!
E quando abria a porteira
cada tento ramalhado,
se espichava igual cantiga
de um mundo antes sonhado.
Quando curava um terneiro
cimbrando numa coxilha,
volta e meia me agradava
levar a mão na presilha…
…deixar que pegasse o mundo
só pra atiçar meus “bordoga”,
que tinham VERSOS “nos dente”
tenências de boa soga.
Meu VERSO teve em banhados
tirando a vaca mais magra,
puxando água barrenta
nos meses de seca braba.
E nalgum Vinte chuvoso
desfilou meio aramado,
estralando sobre a anca
do meu mouro embodocado.
Meu VERSO já foi mocito
- bombachita arremangada,
laçou cabeça de prego
em tanta vaca parada.
Verdejou, vestiu-se em várzea
de carquejas pelas mãos,
pra ser mais firme e constante
e não sofrer por paixão.
(E volto a falar de amor
e não que me falte tema,
meu VERSO é “maria-mol”
vive sempre num dilema:
não quer se manear pra sempre
- se enrodilhar num sorriso -
mas me sussurra no vento
que é só de um que preciso).
E quanto já enfeitou casa
feito uma lua num canto,
pra recordar o urbano
como lhe gusta do campo.
Já quase de argola gasta
(exagerando um bocado),
trouxe rodeios pra mente
laçando zebu aspado.
Meu VERSO de se ir longe…
- Tu é igual caderno velho,
pó e tempo sem remendos
esquecido em amarelo.
Cada tento do teu corpo
que um dia já foi do gado,
fez minha vida até aqui
tal um guardião no costado.
Te batizei VERSO ANTIGO
meu LAÇO de quatro almas,
por trabalhar teu ofício
sem nunca pedir por palmas.
Feito o avô que ensinava,
o pai que mostrava a volta,
seguros no ensinamento
que vive em mim e não solta.
…o meu LAÇO é tipo um VERSO
esquecido e sem valor,
mas que de pronto remoça
no dom de um compositor.
E assim no dia que eu for
meu TRANÇADO de respeito,
que nos guardem na gaveta
com tua História em meu peito.