Identidade

Eu sou o fogo que arde
No coração de quem ama;
Sou clarão na madrugada
Quando a saudade me chama.
Sou a cuia que se irmana
Na roda do mate amargo;
Sou a ilhapa do laço
Quando o peão cumpre o encargo.
Sou a flor da pitangueira
Sou raiz, tronco e semente;
Sou norte, sul, leste, oeste
Sou o sol que vai ao poente.
Sou a lua, num repente
Para mexer as marés;
Sou onda batendo forte
Para inundar o convés.
Sou o campo que rebrota
Ao fim de cada invernia;
Sou a brisa que levanta
Sou geada, sou maresia.
Sou o som da melodia
Sou a água que se bebe
Sou o pai que embala o berço
Sou filho que mãe concebe.
Sou aquele potro solto,
Livre no campo aberto;
Sou a sombra da figueira
Para amainar o deserto.
Entre o errado e o certo
Sou o juiz que dita a norma;
Sou o farol que brilha longe
Quando a vida se transforma.
Sou pé de caraguatá
Que tem beleza e espinho;
Sou o canto do João Barreiro
Levando barro pro ninho.
Eu sou o toque mansinho
Da acordeona e do violão;
Eu sou a vida que pulsa
Nas notas duma canção.
Sou alegria e beleza
Que cada um traz consigo;
Sou a paz perante a guerra
Sou o abraço dum amigo.
Separo joio do trigo
No celeiro da esperança;
Sou a valentia do taura
E a inocência da criança.
Sou encanto do colibri
Voando sobre o jardim;
Sou lenitivo dos males
De quem procura por mim.
Dos anjos, sou querubim
Que no sonho bate asas;
Sou calor que se levanta
Quando alguém espalha as brasas.
Sou o chiado da cambona,
Sou chimarrão topetudo;
Na busca dum bem querer
Eu sou cego, surdo e mudo.
Contraponteando, contudo
Sou inimigo da Vaidade;
Sou o fiel da balança
Que pende para a Verdade.
Sou a pandorga nos ares
Que surfa ao sabor do vento;
Sou o brilho das estrelas
Sou razão, sou pensamento.
Sou emoção, argumento,
Sou fácil de encontrar;
Talvez você não me ache
Por não saber procurar.
Sou a cigarra que canta
A espera de quem não vem;
Sou o sabiá que gorjeia
Pela saudade de alguém.
Nas voltas que o mundo tem
Posso ser frio ou calor;
Sou aquele sentimento
Que o poeta chama de AMOR.