Paciência

Quando o sol se encosta leve
nas crinas da coxilha,
é ela quem senta primeiro,
calada dentro da cuia.
Mora no fio do mate morno,
na espera que se aninha
nas mãos que apartam o tempo,
como quem doma a tardinha.
Paciência é bicho manso,
que rumina madrugadas,
que pastoreia silêncios
em invernias cerradas.
É sombra que não se apressa
pra aliviar ar cansado,
há quem jure ver, de longe,
seu jeito lado a lado.
Às vezes se faz de brasa
guardada em galpão velho,
às vezes se faz de rastro
nos passos lentos do arreio.
Paciência é quem retém
o ar morno da calmaria,
mas também se faz presença
pra quem decifra a vigília.
Em cada fresta de cerca
há um suspiro de quem fica,
ela que encosta no ombro,
ela que ouve sem dar dica.
Paciência, quando tarda,
acalma, mas não se ausenta:
é nome que poucos guardam,
é pessoa que se inventa.
Paciência solta em verso
a fumaça de um pensar,
como poeta que aprende
com o tempo a silenciar.
Deixa preso na palavra
o pulsar da intenção,
pois bem sabe quanto pesa
segurar uma emoção.
E quando a noite se avizinha,
com passos de lua fria,
é ela quem acende o peito
pra espantar ventania.
Paciência faz de poncho
pra cobrir quem se demora,
é lenço que abraça o peito
de quem volta hora a hora.
Tem cheiro de chão molhado,
tem marca de mão calejada,
é palavra que não mente,
é voz que não diz mais nada.
Mora no casco do mate,
no ranger de uma porteira;
quem a chama sabe o custo
de esperar a vida inteira.
No costado da coxilha,
no cochicho do galpão,
há quem sinta que Paciência
tem pulsar de coração.
E quando, por ser pitorra,
se perde numa oração,
Paciência pede calma
pra viver na solidão.
Espero que se atine o tempo
no último fôlego do dizer,
deixo o verso em carne viva
como quem insiste, bem-querer.
Se Paciência é feito gente,
há de ouvir meu coração:
neste suspiro que despejo
a última escrita em vão.
No final de cada espera,
entre um mate e uma saudade,
há quem diga que é só tempo,
há quem sinta, em verdade:
que Paciência é mais que reza,
é mais que lume apagado,
é alguém que sopra silêncio
no peito de um campo parado.