Sapatinhos de Lã

SOBRE SAPATINHOS DE LÃ

 

Eu me lembro...

Já faz tempo...

As agulhas trabalhando num "clique-clique" apressado,

Em contagem regressiva pra a vida começar.

 

A vida...

A vida feita de pressa e cheia de coisas grandes;

Mas ali, naquele tempo, tudo era tão pequeninho:

Tip-Top, sapatinhos, naninhas, fraldas de pano;

Que o tempo às vezes, por certo, esquecia de passar.

 

Talvez assim, como agora.

 

Eu me lembro...

Já faz tempo...

Tanto tempo...

 

Um choro na madrugada virou a luz dos meus dias.

E logo, mais sapatinhos, mais tip-tops, mais fraldas...

E agora algumas bonecas, pra eu tricotar seus vestidos.

 

Então morei por um tempo,

Num mundo feito de sonhos, cheirando a talco e amor.

 

Mas quando pezinhos gordos que mal cabiam na lã,

Ganharam asas e espaços,

Buscando o meu abraço feito algum porto seguro,

Eu peguei suas mãozinhas e os ensinei a andar.

 

É... Eu sei que a culpa foi minha.

 

Eu ensinei que o horizonte é um fiozinho logo ali...

Eu apontei o caminho.

 Falei que o mundo é certeza de uma estrada sem fim.

Eu ensinei que a distância, foi feita pra caminhar;

E ano a ano seus passos, foram mais longe de mim.

 

Eu sei que a culpa foi minha!

 

Se eu tivesse demorado pra ensinar tantas coisas,

Talvez ainda soubessem achar o rumo de casa.

Se eu não tivesse contado tantas histórias pra eles,

Talvez não gastasse o tempo...

Talvez tivesse hoje em dia umas horas pra falar.

 

Ah meus amigos...

 

Um dia a casa ficou grande.

Grande demais pras minhas pernas bambas...

Grande demais pra o meu silêncio todo...

Grande demais para arrastar meus pés...

 

Então pensei, não precisar daquilo,

E me mudei, sozinha, pra este asilo,

E desde então, foi que eu descobri,

Que nossa sina é esperar por eles...

Pois afinal, essa ilusão da espera

É o que alimenta, todos nós, aqui...

 

Mas os meus não vêm... E eu entendo.

O rádio disse que as estradas andam cheias...

Eles têm planos, viagens...

Coisas de gente importante,

E eu aqui, com essa saudade toda, sou um atraso grave no relógio.

 

Só que o que eles não sabem é que as horas no meu peito, tiquetaqueiam mais fracas,

Já quase no fim da corda...

 

Por isso eu decidi que vou fazer um pacote...

Colocar os sapatinhos, os passos de cada um...

A mão já treme demais para escrever um bilhete,

Mas a mocinha da tarde, disse que escreve pra mim.

 

Eu vou dizer bem assim:

"Estou devolvendo os passos, que guardei a vida inteira...

A vida feita de pressa e cheia de coisas grandes.

Os devolvo na esperança que os passem aos meus netos.

Eu afrouxei alguns pontos, pra que os pés caibam mais tempo.

Por favor, não tenham pressa, os ensinem a voar;

Mas não repitam meu erro...

Mostrem a porta e o caminho, pra que eles saibam voltar.

 

E quando der, apareçam.

Me sinto meio sozinha,

Mas não se preocupem filhos...

Eu sei que a culpa é minha!"

Por favor, aguarde enquanto o processo é concluído...