Chasque a um Jovem Poeta

Deste canto do universo

Onde minha alma se aquieta

Escrevo ao jovem poeta

Que principia no verso.

A vida tem seus reversos

E é preciso aceitá-los -

Nem sempre sobra cavalo

Quando a carreira começa;

Quem anda muito depressa

Acaba levando pealo.

 

“O diabo sabe por velho!” –

Já dizia Dom Hernandez

Nos confins deste Rio Grande

Em seu eterno evangelho –

Por isso, este conselho:

Escuta a voz da experiência,

Nunca percas a essência

Do ensinamento profundo

De que, pra cantar o mundo,

Basta cantar a querência.

 

Que conheças o legado

Daqueles que vieram antes

Desde os “Ciegos Caminantes”

Aos bailes de povoado:

Os “triunfos” e os “prados”,

Os “gatos” e os “villancicos”,

As “coplas” e os “pericos” –

Ancestrais do verso xucro

Que traziam no seu fulcro

Este folclore tão rico.

 

Lembra sempre os pioneiros

Que eram poetas por algo:

Ascasubi, Campo, Hidalgo

E seu versejar campeiro:

“Fausto”, “Paulino Lucero”,

“Santos Vega” e os “Cielitos” –

Eternos e infinitos,

Regionais e universais

Alicerces culturais

Do nosso pago bendito.

 

Hay que ler Jayme Caetano

E seus poemas diletos;

Marco Aurélio, Vargas Netto,

Balbino e Aureliano.

O cancioneiro pampeano

De Silva Rillo e outros tantos

Que encantaram com seus cantos

Ensinando a gerações

O linguajar dos fogões

E a liturgia do campo.

Não esqueças nossa história

De batalhas e tratados:

Do índio colonizado

No auge de sua glória.

Conserva viva a memória

De guaranis e charruas

E a atrocidade tão crua

Que lhes impôs o europeu:

Um deus que não era o seu,

A cruz que não era sua.

 

Honra o lenço que carregas

Independente da cor

Pois foi forjado na dor

Durante tantas refregas.

Não confia na fé cega

Que dita regras e normas

Pois existem muitas formas

De cantar a tradição –

Olhar além do galpão

Sempre renova e transforma.

 

É preciso ter consciência

Do que digo, neste aparte,

Que versejar é uma arte

Mas é também uma ciência.

Não basta ter a vivência

De rondas e campereadas

Ou de cruzar invernadas

Atravessando as coxilhas:

Saber domar redondilhas

É parte da caminhada.

 

Sobretudo é necessário

Conhecer métrica e rima,

Metáforas, metonímias,

Grafia e vocabulário.

Guardar como um relicário

O que Etcheverry escreveu:

Que é o poeta, em seu papel,

Mescla de homem e ideia.

E que o olhar da plateia

Brilha bem mais que um troféu.

 

Muito cuidado com os vícios

Que seduzem qualquer um:

O clichê, o lugar-comum,

As armadilhas do ofício,

O excesso e o desperdício,

A falta de coerência.

Importa ter referências

Mas mantendo a identidade

Nunca escrever com vaidade

Arrogância ou prepotência.

 

Saibas, enfim, que a poesia

É bem maior que o poeta

E que a vida é cancha reta

Que chega ao fim algum dia

Mas permanece a magia

Sem amarras ou retovo

E assim, na boca do povo,

Cada vez que o verso é dito

Voltando desde o infinito

O poeta nasce de novo!

Por favor, aguarde enquanto o processo é concluído...