Avenida Central

Nem descansou o sereno,

e o sol já vinha sem pressa;

a claridade nas janelas

mal passava nas frestas.

A aurora, mansa, surgia

Pintando o céu daquela vila,

A presentear com aquarela

quem madruga por uns pila.

 

As luzes na avenida

lentamente se apagavam,

as casas, ainda em silêncio,

Por costume, ressonavam.

Algum resquício da noite

se desprendeu das retinas,

abrindo a porta dos olhos,

seguindo a mesma rotina.

 

As ruas ficam em calma

quando descansa a vilinha;

às vezes passa um cachorro

ou  condução de uma linha.

Mas nada muito distinto

do rito de acordar cedo:

— a cuia vira na palma

e a erva gruda nos dedos —

 

O vento tocou de longe

vozes que mal se escutavam;

ruídos de algum percalço

na cerração se molhavam.

E foi cortando distâncias,

no passo manso das horas,

até chegarem mais claros

sons de cascos e esporas.

 

Um barulho estridente,

riscando o asfalto, se fez,

com gritos de “era boi!”

repetidos mais de uma vez.

Portas se abriram depressa

pra ver o que acontecia:

— o campo entrou na cidade

Enquanto a vila dormia —

 

Vinha um homem a cavalo,

que, por sinal, bem montado,

atacando em cada esquina

com seu rosilho gateado.

O outro, que vinha na frente

(mesma feição de ponteiro),

trazia um sinal de tropa,

montado num baio oveiro.

 

O gado seguiu a marcha,

roubando olhares das casas,

e o sol, recém ponteando,

na cor primeira das brasas.

Fumaças de pito acesos

Nuveavam as calçadas;

Seguiram olhares curiosos

mas ninguém sabia nada.

 

Por cima, vi quase trinta,

remodelando os canteiros,

firmados num só compasso,

do tranco dos culatreiros.

A pressa ditava as regras

pra não se perder do prumo:

“cancha!” — pediu a culatra,

e a ponta frouxou o rumo.

 

Não se viu pra onde iam,

ou sequer de onde saíram;

se contar, não se acredita—

foram poucos os que viram.

Talvez, fosse troca de campo

ou marcação, de repente…

— o campo entrou na cidade

e a água nem tava quente.—

 

O poncho cobria a anca,

como tapando a marca,

evitando talvez o infame

se algum tormento ataca.

Gado sem mossa na orelha,

nem um sinal sobreano,

procedência desconhecida —

no mais, era tudo orelhano.

 

Um zainito — má estrela —

com quatro galhos na cola

se assustou da bandeira

no mastro de uma escola.

A rédea chamou o relho,

Provando sua serventia,

— O Campo entrou na cidade,

E a erva ainda tava fria —.

 

Os rostos tão diferentes

dos demais da vizinhança;

os pingos, pouco cansados,

traziam barro na pança.

O suor não denunciava

o tamanho da distância,

nem se ouviu na redondeza

falar de roubo de estância.

 

E foram cruzando a praça,

Frente à avenida central…

Em pensar que, a poucos dias,

ali passou o carnaval…

Depois de forçar a vista,

conforme iam passando,

os berros foram sumindo

e as perguntas aumentando.

 

Grita o Júlio pro Mariano:

— Será farra ou compromisso?

Dois cernes madrugadores

que passavam pro serviço.

— Não sei — disse Mariano —,

mal avistei pelo vidro…

Mas pareciam centauros

tirados da capa de um livro.

 

E tudo voltou ao normal,

conforme tinha que ser;

o tempo dobrou as horas

pro resto do dia nascer.

As pessoas circulavam

com seus jeitos e façanhas:

“e a cidade, aquele dia,

tinha jeito de campanha.”

 

Isso quase não se enxerga

ou já anda em extinção:

tropa, cavalo e campeiro

no século do caminhão.

Parecia cena de filme

ou a página de um conto —

o campo entrou na cidade,

e meu mate nem tava pronto!

Por favor, aguarde enquanto o processo é concluído...